Citação: O Diabo de José Saramago

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Lá atrás, no mesmo campo onde os cavaleiros executavam um último volteio, um homem afasta-se, virando ainda a cabeça para este lado. Leva na mão esquerda um balde e uma cana na mão direita. Na extremidade da cana deve haver uma esponja, é difícil ver daqui, e o balde, quase apostaríamos, contém água com vinagre. Este homem, um dia, e depois para sempre, será vítima de uma calúnia, a de, por malícia ou escárnio, ter dado vinagre a Jesus ao pedir ele água, quando o certo foi ter-lhe dado da mistura que traz, vinagre e água, refresco dos mais soberanos para matar a sede, como ao tempo se sabia e praticava. Vai-se embora, não fica até ao fim, fez o que podia para aliviar as securas mortais dos três condenados, e não fez diferença entre Jesus e os Ladrões, pela simples razão de que tudo isto são coisas da terra, que vão ficar na terra, e delas se faz a única história possível.

É este o final do capítulo que abre O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago onde o autor descreve a gravura [acima representada] de Albrecht Dürer num dos momentos mais inspirados da literatura nacional. Assim dá Saramago, como sempre polémico, mote à humanização da história que a sociedade ocidental mais ouviu e leu.

Fonte.

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Filed under Citação, Português

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