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Opinião: Claraboia de José Saramago

500_claraboia_caminho_portugalClaraboia é o primeiro e único livro póstumo de José Saramago, editado em 2011. Trata-se na realidade no segundo livro escrito pelo autor, ainda na década de 1940, mas que, após o enviar para a editora, não obteve resposta. Quatro décadas passadas, quando Saramago começou a ganhar popularidade, essa mesma editora contactou o autor para o lançamento do livro que Saramago então recusou, não permitindo a sua edição em vida, deixando o critério da edição para a família.

São desconhecidas as razões que o levaram a recusar, mas quer tenha sido por ressentimento, quer tenha sido por já não se identificar com a obra em si, ambas fazem sentido. Foquemo-nos na segunda, é um livro estranho no mundo de Saramago, possui diálogos devidamente identificados, possui parágrafos, possui tudo aquilo que nos ensinaram nas aulas de Português, mas a verdade é que não possui Saramago. Minto, a semente que décadas mais tarde iria florescer no Saramago que o mundo conhece está presente, há neste livro um primeiro passo, uma meditação sobre temas que mais tarde o autor iria aprofundar de forma muito mais pujante.

A história é muito simples e de fácil leitura e centra-se na vida de um prédio humilde de Lisboa na década de 1950, em que as histórias das famílias que lá vivem se misturam, o sapateiro que observa as pessoas à janela no rés-do-chão e que, com a sua esposa, alugam um quarto a um caixeiro viajante; há as irmãs solteiras com segredos escritos em diários que vivem com a mãe e a tia; a galega que deseja abandonar o marido e levar-lhe o filho; e há Lídia, a amante de um homem que, por sua influência, dará trabalho à filha do casal do segundo andar.

É um livro que conta episódios sem início e sem fim, é um dia-a-dia num prédio onde a história acontece e acontecerá após a última página, tal como a vida que vemos diante dos olhos.

Nota: 3/5

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Opinião: The Importance Of Being Earnest de Oscar Wilde

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The Importance Of Being Earnest é uma peça de teatro do aclamado escritor irlandês Oscar Wilde que estreou em 1895 em Londres. Nela Wilde apresenta-nos dois jovens ingleses, Algernon Moncrieff e John Worthing, que usam o mesmo pseudónimo, Ernest, como ponto de fuga para as suas vidas. Tal experiência às escondidas corre-lhes bem até que ambos se apaixonam por duas mulheres, Cecily Cardew e Gwendolen Fairfax,  utilizando o mesmo nome, o que leva a confusões entre todos eles.

Wilde volta aqui a rechear o texto com crítica social e humana, dando destaque a ridículos de etiqueta e educação envolvidos num humor cáustico muito ao estilo do autor.

Foi uma leitura inesperada que, numa noite de insónia, decidi ler e que em duas doses li do início ao fim, deliciado com a história e as personagens. Oscar Wilde tem aqui mais uma pequena grande obra que se junta facilmente aos seus clássicos.

Nota: 5/5

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Opinião: The Bell Jar de Sylvia Plath

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The Bell Jar (A Campânula De Vidro em Portugal) trata-se de um livro semi-autobiográfico inicialmente publicado em 1963 sob o pseudónimo Victoria Lucas, nome escolhido por Sylvia Plath de forma a proteger-se a si mesma e aos intervenientes do seu primeiro e único romance apesar das alterações de nomes e acrescentos livres na história.

A história do livro aproxima-se muito da da vida de Plath que, sob a personagem de Esther Greenwood, após um início promissor na escrita de literatura poética encontra muitos obstáculos para conseguir concluir o seu primeiro romance onde se foca na sua depressão e atitude suicida. Esther , saída de família humilde dos subúrbios de Boston, estagia numa revista feminina em Nova Iorque e é nessa altura que os seus distúrbios começam a fazer-se sentir, tornando-a instável e depressiva.

Com a sempre presente morte do pai e com a frustração em não se integrar no papel de mulher submissa universalmente aceite na altura, Esther acaba num hospital psiquiátrico de onde nunca perde a ideia de suicídio e de fuga.

Este é um livro pesado, onde a vida real da autora facilmente se confunde com a da personagem, aumentando ainda mais o impacto que este tem, no seu rodopio de pensamentos, de tristeza, confusão e de desespero, empilhados aqui de uma forma tão humana que é capaz de nos levar nas suas palavras como se a seu lado estivéssemos, impotentes perante tamanha sinceridade.

Nota: 4/5

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Opinião: Gone Girl de Gillian Flynn

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Gone Girl, da americana Gillian Flynn, foi dos livros que mais rapidamente li. É um thriller sobre o desaparecimento de Amy, uma mulher bonita, popular e com dinheiro (Perfect Amy), no quinto aniversário do seu casamento com Nick, um jornalista desempregado que obrigou o casal a mudar-se de Nova Iorque para a pacata North Carthage no Missouri.

Se de início tudo aponta para a hipótese de rapto de Amy, com Nick a ajudar a polícia, aos poucos as pistas começam a incriminar o próprio Nick que começa a desesperar com a situação.

O livro é apresentado com capítulos alternados do diário de Amy de um passado próximo e da experiência de Nick no presente. É esta alternância que ajuda a prender o leitor pois este vai conhecendo a relação entre as personagens e vai antecipando os passos que Amy escreveu no seu diário. Vamos percebendo também como Nick deixou de amar Amy e como esta não é, na realidade, perfect.

De revira-volta em revira-volta percebemos que nem tudo é como parece e há várias vacilações na relação que nós, leitores, temos com as personagens, chegando facilmente ao ponto de ódio (bem me avisaram).

É um óptimo livro para se ler num instante dada a forma inspirada como foi escrito e construída a história com a desconstrução total das personagens num remoinho de emoções entre duas pessoas casadas e uma, duas?, psicopatas.

Não deixem de ler que o filme vem já aí.

Nota: 4/5

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Opinião: The Thing Around Your Neck de Chimamanda Ngozi Adichie

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Embalado pelo livro Americanah de Chimamanda decidi ler mais um dela de seguida, aconselharam-me este The Thing Around Your Neck.

Trata-se de uma coleção de histórias, pequenos contos – doze no total – que conta aquilo que Chimamanda faz de melhor e que de mais único tem: a vida nigeriana. Não se julgue que limita as histórias de alguma forma, aliás, é essa também uma das belezas da autora, para além da sua escrita fluída que nos prende mesmo em momentos menos interessantes, ela apresenta-nos uma perspectiva múltipla da Nigéria e dos nigerianos tocando em temas como a violência,  a religião, o racismo, o casamento, a homossexualidade, a emigração e, claro está, o Amor.

Sim, é essa a sensibilidade última que torna Chimamanda tão quente de se ler, conseguindo sempre dar uma volta e reviravolta nos sentimentos das personagens, quer seja pelo seu desespero num casamento forçado, quer seja na saudade por um ente querido que já nos abandonou. É essa humanidade que nos prende até ao fim.

Nota: 4/5

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Opinião: Americanah de Chimamanda Ngozi Adichie (Versão Americana)

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Este foi mais um livro que me foi aconselhado por uma amiga, confesso que não tinha o hábito de ler por conselho mas uma pessoa pode e deve aumentar os seus horizontes. E se isso aconteceu com The Catch Trap, voltou a acontecer com esteAmericanah.

Trata-se do romance editado em 2013 pela nigeriana e aclamada feminista Chimamanda Ngozi Adichie. É nele contada a história central de Ifemelu e Obinze, dois jovens que se apaixonam em Lagos, cidade apanhada no ciclo da currupção económica e política, e que a vida separa, indo Ifemelu para os Estados Unidos da América e Obinze para os Reino Unido. Mas não se pense que esta é uma história de amor.

Chimamanda foca-se, sim, nas dificuldades que ambos encontram para se legalizar nos respectivos países sendo que o foco principal é dado a Ifemelu, onde pela primeira vez na sua vida é confrontada com a sua raça e os obstáculos que esta lhe causa no novo País. Ifemelu descobre-se pela primeira vez na vida negra. Ela decide então criar um blogue onde explora o tema do racismo da perspectiva de uma negra não americana. E mulher. Sim, percebi com este livro toda a importância que o cabelo tem na mulher, em particular na mulher negra. Mas é esta também a beleza do livro, chamar a atenção para coisas que nem nos ocorreriam por nos faltar a experiência de/daquela vida.

Ifemelu consegue superar as suas dificuldades com muita ajuda do seu blogue que se torna um êxito; Obinze ultrapassa igualmente os seus problemas em Londres e ambos regressam, cada um a seu tempo, anos e outros companheiros corridos, a Lagos.

Senti-me muito indeciso em relação à nota que daria a este romance, se por um lado a escrita de Chimamanda consegue ser muito fluída e as páginas escorregam-se-nos pelos dedos (ou pelos Kobos, pelos Kindles); se por um lado os temas que ela foca são genuinamente interessantes e de um intelectualidade emancipada; por outro lado, a história em si é um pouco deixada de lado, ainda para mais história essa que supostamente une os dois protagonistas principais, Ifemelu parece esquecer por completo Obinze durante largos capítulos, a ligação é perdida a meio do livro e apenas retomada na recta final. Chimamanda foca-se também muito nos artigos do blogue de Ifemelu, com muitos tópicos repetidos, quase até à exaustão -cabelo! – quase como se na realidade desejasse escrever uma tese sobre o racismo e o feminismo e não um romance.

Dito isto, não consegui deslargar o livro, embrenhei-me nele e nos seus ideais, nas suas perspectivas de uma vida que de outra forma desconheceria, nas suas lutas, nas suas injustiças e, mais por isso que pela história, considero-o um livro especial e essencial para quem quiser descobrir um pouco mais sobre o racismo actual, o feminismo e, sim, cabelo.

Nota: 5/5

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Filed under Inglês, Opinião, Romance

“Nunca fui como todos. Nunca tive muitos amigos. Nunca fui favorita. Nunca fui o que meus pais queriam. Nunca tive alguém que amasse, mas tive somente a mim. A minha absoluta verdade. Meu verdadeiro pensamento. O meu conforto nas horas de sofrimento. Não vivo sozinha porque gosto, e sim porque aprendi a ser só.”

Florbela Espanca.

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6 de Março de 2014 · 16:04