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Opinião: Levantado Do Chão de José Saramago

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Levantado Do Chão, lançado em 1980, é considerado uma obra fundamental de José Saramago, sendo o primeiro romance editado do autor com o estilo na escrita que tanto o caracteriza. A obra percorre várias famílias alentejanas, em particular a Mau Tempo, desde o final do século XIX até ao período da revolução do 25 de Abril em Portugal. Saramago consegue aqui retratar a luta de um povo face às forças opressoras de um regime ditatorial, dos latifundiários e, claro está, da Igreja num ambiente de miséria rural em que os direitos das pessoas eram escassos.

É um livro em que Saramago se propôs a escrever o Alentejo, o seu calor, as suas terras e o suor – e por vezes até o sangue – daqueles que nelas trabalhavam de sol a sol. É um livro que não deixa de ser político, afinal de contas é impossível ignorar o abuso que o povo passava naquelas décadas, mas são as histórias das pessoas e os seus amores e desamores que unem tudo e tornam o livro em algo mais que uma denúncia das atrocidades cometidas na época.

Há momentos de absoluto brilhantismo e Saramago, que neste livro começou a explorar o seu estilo tão pessoal, mostra uma imaginação que mais tarde lhe viria a dar fama mundial. Recordo em particular um capítulo em que tive, mais uma vez com este autor, a sensação de estar a ler algo único e genial: quando João Mau Tempo é preso por suspeita de organizar uma greve no seu latifúndio, este é submetido a tortura por agentes do regime. Toda a cena, de uma violência visceral é, no entanto, apresentada da perspectiva de um… carreiro de formigas que naquela prisão tem poiso. É com escolhas artísticas destas que Saramago consegue elevar-se a um patamar que poucos alcançaram e tornam este livro uma surpresa.

O livro termina após o 25 de Abril, com a libertação una de todos aqueles, vivos ou mortos, que lutaram e sofreram na pele a opressão do Estado e das tradições centenárias dos latifúndios. É um retrato de Portugal, muitas vezes esquecido pelas gerações mais novas, que não está, no entanto, tão distante como poderíamos acreditar. Mas é, acima de tudo, um retrato do Alentejo e das suas gentes, vastos e imensamente soalheiros.

Nota: 5/5 

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Opinião: Claraboia de José Saramago

500_claraboia_caminho_portugalClaraboia é o primeiro e único livro póstumo de José Saramago, editado em 2011. Trata-se na realidade no segundo livro escrito pelo autor, ainda na década de 1940, mas que, após o enviar para a editora, não obteve resposta. Quatro décadas passadas, quando Saramago começou a ganhar popularidade, essa mesma editora contactou o autor para o lançamento do livro que Saramago então recusou, não permitindo a sua edição em vida, deixando o critério da edição para a família.

São desconhecidas as razões que o levaram a recusar, mas quer tenha sido por ressentimento, quer tenha sido por já não se identificar com a obra em si, ambas fazem sentido. Foquemo-nos na segunda, é um livro estranho no mundo de Saramago, possui diálogos devidamente identificados, possui parágrafos, possui tudo aquilo que nos ensinaram nas aulas de Português, mas a verdade é que não possui Saramago. Minto, a semente que décadas mais tarde iria florescer no Saramago que o mundo conhece está presente, há neste livro um primeiro passo, uma meditação sobre temas que mais tarde o autor iria aprofundar de forma muito mais pujante.

A história é muito simples e de fácil leitura e centra-se na vida de um prédio humilde de Lisboa na década de 1950, em que as histórias das famílias que lá vivem se misturam, o sapateiro que observa as pessoas à janela no rés-do-chão e que, com a sua esposa, alugam um quarto a um caixeiro viajante; há as irmãs solteiras com segredos escritos em diários que vivem com a mãe e a tia; a galega que deseja abandonar o marido e levar-lhe o filho; e há Lídia, a amante de um homem que, por sua influência, dará trabalho à filha do casal do segundo andar.

É um livro que conta episódios sem início e sem fim, é um dia-a-dia num prédio onde a história acontece e acontecerá após a última página, tal como a vida que vemos diante dos olhos.

Nota: 3/5

Link GoodReads.

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“Nunca fui como todos. Nunca tive muitos amigos. Nunca fui favorita. Nunca fui o que meus pais queriam. Nunca tive alguém que amasse, mas tive somente a mim. A minha absoluta verdade. Meu verdadeiro pensamento. O meu conforto nas horas de sofrimento. Não vivo sozinha porque gosto, e sim porque aprendi a ser só.”

Florbela Espanca.

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6 de Março de 2014 · 16:04

As Palavras De José Saramago

“As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.”

José Saramago.

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28 de Janeiro de 2014 · 15:55

A Chave, Graffiti Literário

Deparar-me com este graffiti em Lagos, Algarve, e sentir-me em casa.

Nota: Clicar na imagem para ver em tamanho original.

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Quando Desistir É A Melhor Opção

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Confesso que não foi uma decisão fácil, este terá sido o segundo livro que desisti em todas estas décadas que sigo lendo desde que o sei. Já me tinha queixado por aqui mas a verdade é que não consegui manter a promessa de o terminar apenas por que sim. Fui partilhando esta minha indecisão e frustração com amigos, também eles ávidos leitores, e todos eles me recomendaram a começar um outro livro pois por vezes a altura não é a adequada para lermos determinado livro. E a culpa poderá nem ser desse mesmo livro mas sim de nós. Nós poderemos não estar adequados ao livro no momento e insistir não irá alterar nada. E, também me disseram, há tantos livros bom para ler e tão pouco tempo, para quê patinar dias seguidos num livro que não nos prende, não se liga, a nós.

E então, impulsionado também por uma forte sugestão dada por uma amiga, segui em frente e abri um outro livro. Never Let Me Go não poderia ter título mais irónico. Mas assim é.

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Livros Que Não Prendem

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Seria sempre uma questão de tempo até me defrontar com aquela situação em que começamos um livro entusiasmados, quer seja pelo conselho de amigos quer pelo hype em redor do seu autor, por exemplo, e damos por nós a ler páginas seguidas sem encontrar um ponto ou um conto que nos prendam ao livro.

É nesse estado em que me encontro. Não interessa o livro ou autor, irão ver a crítica habitual aos mesmos dentro de uns dias (ou podem fazer batotice e ir ao meu perfil no Goodreads).  Noto que estou a demorar mais do que o habitual a terminar esta obra mas a verdade é que, mesmo em obras simples, tenho encontrado o vício necessário para me levar pelos capítulos e por vezes tenho que lutar para não ler mais. Neste caso, leio com o desejo de encontrar o final do capítulo.

Há livros assim, não necessariamente maus, mas são livros que não nos prendem.

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